sábado, 8 de janeiro de 2011

Os cegos e os pronomes demonstrativos

O processo de ensino-aprendizagem depende de vários fatores. Um, sem dúvida, é conhecer os alunos, suas estratégias de aprendizagem e suas peculiaridades. Isso pode ser um pouco complicado, mas o tempo mostrará ao profissional da Educação em início de carreira que não é impossível. Esse professor, que em outra época teve dificuldades para entender seu aluno, com a experiência, hoje consegue compreendê-lo com um sinal apenas.
Quando se trata de alunos cegos, há aspectos que devem fazer parte da vida do professor interessado e atuante no processo de ensino-aprendizagem. É o caso de determinadas palavras, como, por exemplo, os pronomes demonstrativos ou os dêiticos. Celso Cunha e Lindley Cintra afirmam, na obra Nova gramática do português contemporâneo, que a função dêitica é a capacidade de mostrar um objeto sem nomeá-lo e é representada, principalmente, pelos pronomes demonstrativos.
Ora, qualquer palavra que se diga à pessoa cega, cuja referência visual não existe, o que garantirá o significado é o contexto.  Se dissermos, por exemplo, “Aquele carro vermelho”, cometeremos duas gafes, pois duas palavras nessa frase não têm referência para o cego, ou seja, ele não pode tocar: aquele e vermelho. Tanto pronomes demonstrativos como cores não querem dizer nada ao cego de nascença. Se ele perdeu a visão com o passar dos anos, terá memória visual e se lembrará das cores, facilitando a identificação da referência. Pronomes demonstrativos, porém, ele continuará sem saber.
Transpondo essa situação para a sala de aula, pensemos em um professor de matemática que diz a seu aluno, por exemplo, “Isso mais isso é igual a isso”, sem respeitar sua cegueira. Certamente, esse aluno ficará sem entender a questão.
Assim como devemos usar linguagem adequada ao tipo de ambiente linguístico em que estivermos, também ao nos dirigirmos a pessoas cegas devemos adequar nosso vocabulário para não excluí-las com nossa fala compreensível apenas para videntes.
Vamos refletir sobre isso? Será que não estamos usando inadequadamente as palavras com nossos alunos cegos?

Nenhum comentário:

Postar um comentário